PANTONE 18-3838 Ultra Violet: entendendo a escolha desta cor.

PANTONE  18-3838 Ultra Violet: entendendo a escolha desta cor.

PANTONE 18-3838 Ultra Violet: entendendo a escolha desta cor.

22 de fevereiro de 2018

Quando surgiu o violeta?

Os fenícios foram os primeiros a extrair a cor violeta dos moluscos das conchas Bolinus Brandari do Mediterrâneo por volta de 1.570 a.C., naquela época, eles mantinham um “certo” privilégio ambiental da espécie no Mediterrâneo. Para a obtenção de 1 grama de cor sólida deste pigmento, que é extraída das glândulas endócrinas deste molusco, são necessários, aproximadamente 10 mil desses caracóis do mar.

 

 

A concha Bolinus brandari representada em um  mosaico romano, símbolo de status.  Séc. I. http://artandfaithmatters.blogspot.com.br/2016/04/tyrian-purple-art-lectionary.html

Nos antigos impérios Romano e Bizantino, a cor violeta era utilizada, exclusivamente nas vestes luxuosas da nobreza e o clero, símbolo de riqueza, poder e posição social.

Rainha Teodósia portando seu manto violeta.  Séc. 6 – Ravena – ITA http://images2.corriereobjects.it/methode_image/2016/09/18/Cultura/Foto%20Gallery/ga.JPG

As explorações marítimas do Renascimento, levaram os espanhóis a conhecer as culturas Incas, além das inúmeras novidades, se depararam com uma nova cor, o vermelho carmim de fundo violeta, que era extraída, da maceração de uma grande quantidade das fêmeas de uma espécie de formiga, que se alimentava de cactos da região. Toneladas desta matéria, foram levadas para a Espanha e guardadas a sete chaves como segredo para a futura  exploração comercial da “nova” cor. Durantes as andanças e explorações do Renascimento, os portugueses levaram do Brasil, no século XVII, o vermelho carmim do Pau Brasil que tingia com exclusividade as vestes vermelhas de Luís XIV, no período Barroco.

Na metade do século 18, depois das descobertas realizadas, para a obtenção da simbólica cor violeta, por meios complexos de extração de várias fontes naturais caracóis, insetos e plantas, o desafio era encontrar, maneiras mais simples e  baratas de se obter essa cor tão desejada. Cuthbert Gordon, um comerciante de artefatos de cobre, identificou em uma caldeira de tinturaria em Londres, mais uma forma de extração e produção do corante da cor violeta, através da utilização de líquens.

 

Líquen Roccella Tinctoria que deriva a cor violeta, nativo da Europa. https://www.thm.de/lse/en/fachbereich/team/professoren/singlearticle/13-94-Kirschbaum/201-flechtenbilder-r.html

O processo consistia em lavar, secar, ferver e mergulhar em amônia, para ao final triturar e extrair a tintura violeta. Em 1761, Gordon tinha uma empresa de corantes e oferecia uma cartela com 78 cores derivadas de líquens que variavam entre violetas avermelhados e violetas azulados, conhecidas como cores de base ácidas. Ele patenteou sua versão de violeta e chamou de Cudbear, mas não considerou a sustentabilidade dos líquens que para a produção em massa do corante chegou a consumir 250 toneladas de liquens por ano. Com isso, foi obrigado a importar de outros países do Norte. O esgotamento ambiental levou sua empresa à falência. Somente na metade do século 19, quase um século depois, o corante violeta seria resolvido.

Catálogo de cores Cudbear, de Cuthbert Gordon, 25/5/1761. http://www.gutenberg-e.org/cgi-bin/dkv/gutenberg/slideshow_low.cgi?pn=43

Em 1856, o inglês William Henry Perkin, estudante de química no Royal College of Chemistry de Londres, realizou, através das alquimias com produtos químicos durante suas tarefas acadêmicas, experimentos que resultaram na criação da primeira anilina sintética da cor violeta.

 

Vestido do dia em seda lisa. Reino Unido/França – Photo: Victoria and Albert. http://kvadratinterwoven.com/media/image-section/image-id/large/2-2006bb4781-2500.jpeg

O resultado de Perkin foi acidental, o propósito de seus experimentos era encontrar uma maneira barata de produzir a quinina, substância usada para tratar a malária. Para a obtenção desta substância, era necessário extrair elementos químicos de determinadas cascas de árvores exóticas, nobres e caras. De forma caseira, para conseguir a quinina artificial, seu objetivo primeiro, Perkin começou a misturar os ingredientes. Inicialmente, misturou anilina oxidante com dicromatona, o resultado, foi o surgimento de uma substância preta, derivada do lodo do alcatrão de carvão, que acabou sendo utilizado para a iluminação a gás por todo o período vitoriano.

Frasco da 1a. substância em 1865. https://smgco-images.s3.amazonaws.com/media/W/P/A/medium_1952_0175.jpg

Após terminar o experimento, Perkins aplicou em um tecido, e o que era inicialmente preto profundo, após limpar seus resíduos com pano e álcool, revelou-se o violeta. Dada a sua sensibilidade a luz, era essa, uma das cores mais difíceis de ser fixada em superfícies. Até então, o que se sabia historicamente, é que essa cor era, sob a ação do calor e principalmente da luz, impossível de ser fixada a longo prazo.

Um dos processos já utilizados para a obtenção do violeta, era a extração da secreção de uma determinada espécie de molusco –  Murex brandaris –  proveniente de uma região no Mediterrâneo  próxima ao Líbano. A extração era complicada e minuciosa e todo o processo encarecia a cor que ficou conhecida como púrpura de Tyrian.

 

Concha murex do Mediterrâneo. http://chromatopia.org/2017/06/tyrian-purple/

Outra forma de se extrair a cor, era por meio de vegetais e com várias etapas de decantação e depois a fixação nos fios têxteis, que em geral eram levemente cores lavadas. Com o tempo a cor perdia sua coloração em contato com a luz.

 

Extração vegetal dos derivados do violeta e azul. http://www.kremer-pigmente.com/naturfarben-

Perkin se deu conta que havia criado um corante útil, a Mauveine, como ficou conhecido o primeiro corante violeta barato e estável. Inicialmente ele comercializou como um produto raro, e, portanto, somente os nobres e burgueses continuaram a consumir essa cor. Ao longo de sua produção a anilina violeta tornou-se mais acessível e foi um dos primeiros corantes sintéticos da indústria química moderna.

 

Variações do violeta de anilinas sintéticas. https://londonist.com/2015/08/how-the-colour-purple-was-invented-in-london

Sendo uma novidade e uma sedução visual, o violeta se estabeleceu em um período em que a percepção visual se tornou o sentido mais estimulado, dada a quantidade de novidades que apareciam no século 19, resultante da Revolução Industrial. O violeta, juntamente com suas variações, como o lilás, malva e rosa, foi a cor mais desejada da época e marcaram a moda primavera de 1856.

Segundo Regina Lee Blaszczyk, autora do livro “ The Color Revolution ”, a descoberta de Perkin o levou a concluir que até então havia apenas corantes naturais, derivados de plantas e animais (JACOPO, 2017). Perkin patenteou o seu corante e sua família, investiu em uma pequena fábrica em Greenford, próximo à Londres. Ele deu continuidade a seus experimentos químicos e conseguiu sintetizar vários outros corantes naturais, mas a essa altura ele já tinha vários concorrentes.

Os impactos da cor violeta foram sentidos na moda do século 19, e foi batizada por Perkin pelo nome tradicional da Antiguidade, Tyrian Purple. Em 1857 uma de suas variações, o Lilás, seria divulgada em um vestido de verão, pela imperatriz Eugénie, esposa de Napoleão III da França. Em 1859, surgiu o Malva – até então considerada uma cor que simbolizava cólera – que se espalhou nas roupas femininas burguesas.

Imperatriz Eugénie em seu vestido de verão de 1857.  Pintura de Franz Xavier Winterhalter. https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/e/e2/L%27imp%C3%A9ratrice_Eug%C3%A9nie%2C_1854%2C_Franz_Xaver_Winterhalter.jpg

Com o desenvolvimento de outras anilinas sintéticas, o poder do violeta seria superado em 1870 por cores vivas e profundas como o vermelho alárea, magenta ácido, verde aldeído, o preto absoluto, o azul cobalto e o fúcsia. Tanto desenvolvimento no setor têxtil e te tingimentos, outros instrumentos para auxiliar esta evolução foram criados, como a máquina de costura da Singer, importada da América.

Vestido magenta, Madame Vignon, Paris, c.1870. Photo: Victoria and Albert Museum, London. https://en.paperblog.com/this-week-s-dress-vivid-magenta-and-an-attack-of-mauve-measles-540557/

A cores vivas decorrentes das anilinas sintéticas, agora tinham vida longa nos tecidos, tanto na moda quanto nos interiores. Perkin somaria outras contribuições à história da química, como a borracha sintética, fibra de nylon e poliéster e remédios como a penicilina (JACOPO apud BLASZCYK).

A gama de violeta ficará entre suas variações vermelhas e azuis, resultando no lilás, magenta, rosa, solferino, ametista, anil, lavanda e outras variações.

 

A COR NO BRASIL

A cor violeta e toda a sua gama variações cromáticas, possuem vários significados.

O uso da cor violeta dentro de ambientes o torna sombrio, intimista, introspectivo.  Nos países de baixas temperaturas o seu uso tem bastante receptividade. Como vimos acima as suas tonalidades ácidas são de origem oriental, e influenciaram o Ocidente principalmente no Período Vitoriano no século 19.

No Brasil, na nossa cultura sincrética, o violeta simboliza espiritualidade. Na Umbanda, o orixá Nanã Burukú se veste de violeta, para eles, a cor da transformação e do ritual de passagem. No Kardecismo, presente no Brasil, desde o final do século 19, o violeta é a última cor do espectro solar terreno e possui vibração mais elevada, sua frequência atinge as camadas mais sutis e elevadas do ser. No Catolicismo o violeta tinge a veste na alta esfera do clero, demonstrando hierarquia, além de simbolizar mutação e transformação.

Em tempos de busca do autoconhecimento, como forma de proteção dos excessos das informações midiáticas e hiper comunicação, encontramos em outras culturas, principalmente nas filosofias orientais, artifícios e rituais como a meditação e a concentração, ensinamentos práticos que nos ajudam a nos conectar com a nossa essência e desacelerar o tempo. No hinduísmo a cor violeta está presente na prática milenar do yoga, ela é a cor do 7º Chakra, o coronário ou Sahasrara, que se localiza no topo da cabeça, sob o som do silêncio, seu princípio fundamental é a Essência Pura, a intuição, sentido este  que se conecta com o que não pode ser visto, e sim, sentido.

Hoje, o violeta retorna como uma sugestão da PANTONE para 2018.

Dentro da multiplicidade da cultural brasileira, o violeta é acompanhado de outras cores e tons. Nossa solaridade e simbolismo, amplia o uso dessa cor como um elemento compositivo na paleta cromática, tanto na moda quanto nos interiores.

Como cor terciária, o violeta e seus tons convivem harmonicamente com outras terciárias. 2016. http://casavogue.globo.com/Interiores/noticia/2017/12/ultra-violet-12-ambientes-com-cor-de-2018.html

Nos nossos interiores e no nosso design suas derivações mais encontradas são o rosa, o lilás e o berinjela acinzentado.

Sofá Bolota dos Irmãos Campana https://www.nytimes.com/2017/04/12/style/4-design-trends-from-the-milan-furniture-fair.html

No espectro solar, o violeta é considerado uma cor fria, misteriosa e profunda, que nos incita a reflexões importantes para repensar nosso tempo.

A análise sobre cor, nos leva a entender que, diante de tantos deslocamentos e mudanças aceleradas, necessitamos de uma âncora. O violeta faz estas conexões com a espiritualidade, a infinitude e a intuição, elementos fundamentais para enfrentarmos as adversidades e para gerar visões criativas para futuro.

Trends + Colors: P.O.Box 18 – figo

 

WEBGRAFIA

CHEN, Yuzong. History of Purple: A ‘Technological’ Breakthrough. 29/03/17. https://medium.com/@yuzongchen/history-of-purple-a-technological-breakthrough-f090d82036d1. Acesso em 12.12.18

JACOPO, Prisco. The color purple: How an accidental discovery changed fashion forever. 29/08/17. https://edition.cnn.com/style/article/perkin-mauve-purple/index.htm. Acesso em 12.12.18

SCALES, Laurence. How The Colour Purple Was Invented In London. 08/2015. https://londonist.com/2015/08/how-the-colour-purple-was-invented-in-london. Acesso em 12.12.18