Kitsch Folk

Kitsch Folk

Kitsch Folk

27 de novembro de 2017

As grandes mudanças atuais alteram nosso cotidiano contemporâneo em um ritmo único na história. Frente a esse turbilhão de informações e incertezas, a ideia da identidade cultural nos assegura no espaço e no tempo. No exercício da identidade, evocamos a consciência de quem somos, isso nos revela como nos relacionamos com o nosso entorno. Essas reflexões relevam significativas oportunidades de transformações na nossa maneira de viver, com também a qualidade de vida. Sendo assim devemos repensar nossas formas de ocupar os espaços e quais são nossas experiências e vivências que realmente importam para representar nesses espaços.

As tendências são bem mais do que apenas modismos, são uma lente de aumento no tempo presente que nos ajuda a planejar o nosso futuro, também são o prenuncio da diversidade das novas formas de vida que podemos vislumbrar. Resta-nos o direito e o dever de escolher o estilo de vida que traga maior prazer neste percurso.

Atualmente a funcionalidade não está mais ligada apenas à praticidade, mas também a estética que nos garante o alimento da alma. Além disso, há o apelo constante do novo. Viver é estar de mudança para a próxima novidade. Com uma gama enorme de bens e serviços, para todas as faixas e gostos, a seu alcance, só resta ao indivíduo escolher entre eles e combiná-los para marcar fortemente sua individualidade.

A palavra “kitsch”, segundo o dicionário etimológico de Friedrich Kluge, tem origem por volta de 1870 e era usada entre pintores alemães da época. Não há uma definição clara, mas naquele período, indicava o ato de amontoar detritos ou barro nas ruas, kitschen. Existem outras analogias à origem da palavra, ou palavras alemãs que possuem a mesma terminação “tsch”, que se referem a coisas vulgares, ingênuas, sentimentais ou infantis, ironia, humor e fantasia. Ao final, percebemos que sua definição é complexa, necessitando de atenção quanto ao seu uso.

Cadeira Kitsch constituída de chifre de alce. http://static3.absolutmadrid.com/wp-content/uploads/2012/05/silla-kitsch.jpg

O Romantismo subverteu os códigos de beleza e mostrou o avesso do modelo, mostrando a outra face, o anti-estético, que foi se definindo como Kitsch. O Kitsch foi uma das características da estética do romantismo inglês que nos interessa nessa tendência proposta, a KITSCH FOLK. Dentro do romantismo inglês, temos o Vitoriano, que chegou no Brasil como estilo no meio do século 19. Outras características marcam o estilo como: o pluralismo e o ecletismo (mistura de estilos), a ornamentação profusa e uma união de referências ocidentais e orientais. É importante salientar que o romantismo é uma manifestação cíclica, como o racionalismo. Essa reação retornaria em outros momentos da história ocidental como, o movimento hippie e a arte Pop dos anos 1960 e o Neoecletismo dos anos 1990.

Referências do Ecletismo século 19 – Vitoriano – no Brasil

O estilo Vitoriano com sua característica eclética de somar vários estilos e citações de ornamentos de tempos diferentes, influenciaram a construção de vários palacetes paulistanos no final do século 19. Ambas as construções, inglesas e brasileiras se caracterizaram por uma variedade de telhados de formatos e caídas, além de vários volumes assimétricos na arquitetura, torres e mansardas (janelas no telhado).

Palacete Vitoriano – Oxley House – Inglaterra. 1861.

https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Oxley_House_LS16_8HL.jpg

Palacete Lacerda Soares na Praça da República esquina com rua Marques de Itu- Proj. Ramos de Azevedo de 1892.

https://i.pinimg.com/originals/f7/4a/d7/f74ad7e33200cd76dedd2d8fa6cd9f43.jpg

No Brasil experimentamos o ecletismo na metade do século 19. Em 1867, em São Paulo no município de Santo André foi inaugurado a Estação Alto da Serra, em Paranapiacaba. O projeto inglês trazia a tecnologia por meio dos transportes ferroviários e um vilarejo na cidade. A escolha do local também beneficiava os ingleses que reconstituíram um pedaço de suas origens, pois o lugar é úmido e reproduz o fog londrino.

Porta da entrada da Bolsa do Café no Centro de Santos. Foto: P.O.Box Design – Sueli Garcia

Torre do relógio da estação de Paranapiacaba.  Foto de: Marina Rosmaninho http://grandemetamorphose.blogspot.com.br/2015/12/paranapiacaba.html

Em 1901, seria a vez de outra construção inglesa e eclética ser construída em São Paulo, a Estação da Luz em estilo Vitoriano.

Estação da Luz. 1901. Por Jefferson Pancieri/PortoBay Hotels & Resorts – Flickr, CC BY 2.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=44522823

No século 20 o ecletismo rompe a fronteira entre o bom e o mau gosto. Uma nova onda de rupturas tomaria conta da racionalidade, decretando uma comunicação direta, jovem, alegre que se manifestou inicialmente na Arte Pop (termo proposto pelos críticos americanos Fiedler e Banhan em 1956), considerada a primeira expressão pós-moderna nas artes plásticas. Objetos e imagens tiradas do consumo popular entram em cena. A Arte Pop é de origem inglesa, tendo início em Londres através do artista Richard Hamilton, que em 1955, produziu a sua colagem criticando a cultura americana, sob o título “O que Faz os Lares Atuais tão Sedutores”. A expressão de Hamilton encontraria eco e identidade nos EUA nas obras de Andy Warhol e Roy Litchtenstein.

Richard Hamilton, Colagem “O que Faz os Lares Atuais tão Sedutores”. 1955.

http://i.telegraph.co.uk/multimedia/archive/01996/hamilton_pic_1996547b.jpg

Novamente a expressão Kitsch seria retomada, sob aspecto de humor, trazendo ao design características de objetos de massa, como ocorria com a arte ao utilizar imagem de produtos de consumo vendidos em supermercado, ou imagens de história em quadrinhos e outras mídias populares. Exotismo e falso luxo seriam características de objetos de consumo nos EUA dos anos 1960.

No comportamento, a juventude orientava as novidades e explora o Oriente na corrente da Contracultura.

Lustre francês Kitsch – 1960 http://www.negrelantiques.com/catalog_images/qgqgiq9jzy78.jpg

No Brasil o Kitsch também desponta nos anos 1960 para 1970, destacando os artistas Nelson Leirner e Wesley Duke Lee.

Madona das bananas – Nelson Leirner. http://www.democrart.com.br/aboutart/artista/nelson-leirner/

O pós-modernismo se oporia a todo o rigor modernista da primeira metade do século 20, propondo ecletismo de formas, símbolos e materiais, adoção da cultura popular, combinações variadas em uma composição. A composição pós-moderna propõe jogo de forças contrastantes e um humor colorido para combater o tédio, tão criticado na formalidade modernista.

O ecletismo dos anos 1990, ganha grande forma com os designers e arquitetos italianos que denominaram o estilo como Neo-ecletismo de acordo com o italiano Ugo La Pietra. Nessa definição ocorria um fenômeno similar ao período Romântico do século 19, que historicamente sofreu uma reação frente às grandes modificações provocadas pela Revolução Industrial. Durante ao contexto da industrialização, o indivíduo ocidental buscou reações e experiências no passado, na cultura e na identidade.

Objetos tradicionais convivem com novas expressões experimentais. 1990. http://www.okart.it/wp-content/uploads/2013/09/Statue-also-Die.jpg

Nos anos 1990, sob outro contexto, percebemos uma consciência e reação ao presente, que já havia iniciado nos anos 1980 com os movimentos Alchimia e Memphis, ambos italianos. A volta da cor, dos ornamentos, do conjunto de citações históricas sob novas linguagens, estampas, novas matérias primas se somavam à tecnologia da computação gráfica, dos efeitos especiais e da internet.

Exposição sobre os anos 1990 do designer e arquiteto Ugo La Pietra.  https://hardecor.com.br/o-inventivo-arquiteto-e-designer-ugo-la-pietra-2/

Várias expressões artísticas experimentavam dessacralizar as obras de arte consolidadas, propondo novos jogos de observação, algo que Marcel Duchamp já havia feito no Ready Made nos anos da 1ª. Guerra Mundial. Agora nos anos 1990, o mundo se tornava pequeno, com a explosão de tecnologia na comunicação e nas mídias.

Todos esses ciclos de manifestação romântica e eclética se somam na Kitsch Folk que tem uma combinação bem própria do nosso tempo. Ela desponta com as características historicistas do romantismo, o toque orientalista e bem humorado dos anos de 1960, e as novas linguagens dos anos 1990 principalmente, porque se preparava para entrar no novo século e novo milênio e para enfrentar o futuro, emprestamos o conhecimento do passado. As fortes características românticas estão presentes nessa tendência.

Na tendência proposta KITSCH FOLK, trazemos os traços exóticos e folclóricos que reúnem vários estilos, vários tempos, resultando em uma linguagem eclética. O resgate também se encontra nas práticas do artesanato, das artes e ofícios e das manifestações culturais folclóricas. A dramaticidade espacial é garantida pela explosão de superfícies estampadas e multiplicidade de cores, imprimindo uma composição divertida e kitsch, que convida para uma experiência visual e sinestésica.

Cartela cromática:

Palavras Chave:

Exótico + eclético + folclórico eclético + complexo + assimétrico + dramático + romântico.

Materiais:

Papéis de parede florais, estampas em 3D, pisos coloridos, mistura de materiais e cores. Variedade de ornamentos, composições assimétricas tanto nos acabamentos como no mobiliário e objetos propostos.

Referência bibliográfica:

CALINESCU, Matei. Five faces of modernity. Modernism, Avant-Garde, Decadence, Kitsch, Post Modernism. Durham: Duke University Press, 1987, 395 pp

GREENBERG, Clement. Arte e cultura. Tradução de Otacílio Nunes. São Paulo: Ática, 1996, 280 pp.

MOLES, Abraham. O Kitsch: a arte da felicidade. 3.ed. Tradução Sérgio Miceli. São Paulo, Perspectiva, 1986,  231 pp. il p&b. [Coleção Debates]

KITSCH . In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2017. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/termo3798/kitsch>. Acesso em: 26 de Nov. 2017. Verbete da Enciclopédia.

ISBN: 978-85-7979-060-7