Tendências: uma maneira de criar o futuro?

Tendências: uma maneira de criar o futuro?

Tendências: uma maneira de criar o futuro?

6 de outubro de 2017

A natureza da previsão das tendências é a de antecipar as mudanças decorrentes do contexto sócio-econômico-cultural-político-ambiental, etc., de cada época. Dentro desse cenário, observar o presente exercita a observação e a análise, necessárias para desenvolver as tendências.

O intuito é elaborar o futuro, dentro de um complexo ambiente de produção multidisciplinar com inúmeras variantes de necessidade. Esses estudos nos levam ao objetivo final, o de antecipar possíveis respostas para segmentos profissionais e empresas.

Na história da humanidade a busca pelos acontecimentos do futuro sempre acompanharam o indivíduo. Ler a sorte por sinais na natureza, ou buscar positivismo tornou-se um ritual necessário para a sobrevivência desde a pré-história.

Anteceder a caçada criando imagens de domínio, desenvolvia o pensamento positivo de uma caça bem sucedida. https://cdn.goconqr.com/uploads/slide_property/image/728846/desktop_d23e015d-4d64-4272-8200-162a5ab54f0a.jpg

A astronomia é considerada a mais antiga das ciências e seu propósito era medir a passagem do tempo e prever períodos para plantios e colheita, e com o tempo essas práticas dão origem a astrologia, que previa o futuro, uma vez que não tinham conhecimento das leis da natureza (física).

A crença estava na relação com as forças invisíveis, que o indivíduo acreditava, serem orientadas pelos deuses que tinham o poder das leis naturais. A natureza era o ponto de encontro com as forças que ajudavam a prever o futuro. Na Antiguidade, as cidades Babilônia e Assíria, utilizavam órgãos de animais para prever o futuro.

Na Grécia antiga os oráculos ganharam status político ao conectar o mundo físico com o espiritual. Suas previsões incluíam decisões religiosas, guerras e invasões.

Ilustração oráculo de Delphos. https://animasmundi.files.wordpress.com/2015/09/pitonisa.jpg

Durante a Idade Média, a Roda da Fortuna ganhou popularidade. Esse conceito nasceu na mitologia romana e fazia referência à natureza caprichosa do destino. A roda (de fato, um timão) pertence à deusa Fortuna que a gira aleatoriamente, mudando assim a posição dos homens que se encontram submetidos a boa ou má sorte. A roda é um símbolo dos ciclos da fida.

Roda da fortuna – destino na Idade Média. https://yanchepcatholic.org/tag/wheel-of-fortune/

No Renascimento a ciência acaba por desenvolver um papel importante de previsão por meio de fenômenos físicos e naturais. Mas o caso mais famoso de previsão do futuro foi Nostradamus, um alquimista que no século 16 teve a capacidade de vislumbrar e registrar o futuro interpretado a longo prazo.

As sofisticadas maquinas de Leonardo da Vinci para o futuro. http://alexiouarchitects.blogspot.com.br/2015/04/leonardo-da-vinci.html

De acordo com Magnus Lindkvist (2010) o termo aparece no século 18, mas foi usada pela primeira vez em um periódico no ano de 1936, quando a Associação do Design e da Industria da Inglaterra publicou uma revista com o nome Trend que editava artigos relacionados com lançamento de produtos e design. Desde então, estudar o contexto para planejar o futuro, passou a ser uma prática importante para o planejamento profissional. O segmento que mais exercitou as tendências para impulsionar seus produtos foi a moda, que no século 19 já desenvolvia desfiles sazonais. O grande criador da alta costura, Frederick Worth já utilizava desfiles para mostrar suas coleções, um espetáculo também utilizado nas lojas de departamento do fim do século 19, como a grande loja Selfridge’s de Londres. Nos anos 1960 a palavra tendência foi incorporada na linguagem de design e de moda.

Vitrina da loja Selfridge´s em 1900
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Prever tendência é um exercício que envolve compreender o entorno e sentir o movimento para detectar a direção. É preciso ter o pensamento livre para desenvolver associações da macrotendência nos segmentos: antropológico, cultural, social, político, econômico, tecnológico, ambiental, etc. Soma-se a esse conjunto, o conhecimento do problema em questão das áreas do design: produto, serviço ou conceito. Essa observação multidisciplinar permite oferecer novas saídas e promove uma sensibilização dos sentidos, entender as conexões, compreender o tempo e devolver respostas que signifique o indivíduo de seu tempo. Sob essa ótica, nos parece importante prever o futuro.

Até recentemente os caçadores de tendência eram pessoas que atuavam intuitivamente e tinham a capacidade de identificar algo novo, e grande parte das vezes as análises se focava na forma do objeto e a contextualização baseada na mudança de comportamento. A aparência do objeto, ou seja, a forma era o foco da análise e se manifestava como o “lugar” que resguardava a primeira identificação da tendência. E evolução e tendência são pares que impulsionam a frente.

Sistema integrado, 1971 de Joe Colombo. Uma visão de futuro, necessária após a 2ª.Guerra Mundial para impulsionar o cotidiano. http://68.media.tumblr.com/8a09555c03c9142d7e4088aa8d70e2a1/tumblr_mtdk5mM4zP1r9xcmto5_1280.jpg

No processo de identificar tendências, o exercício é mais abrangente e complexo, pois é necessário contextualizar o novo e o estranho para entender a sua emergência. Nesse processo ás vezes é possível averiguar traços fortes ou efemeridades. Para iniciarmos um estudo com base em situações possíveis é necessário partir da Macrotendência.

As macrotendências duram mais tempo, afetam muito mais aspectos distintos de uma sociedade e implicam em um processo complexo que também inclui a política, a economia, meio ambiente, relações internacionais, ciência e tecnologia e cultura. As macrotendências têm, com frequência, uma influência durável nas sociedades e não são muito previsíveis. A descrição da anatomia das macrotendências, implica em estudo de toda ciência social existente, o que muito provavelmente necessitaria de uma complexa bibliografia e pesquisa de campo.

Para organizar as tendências é necessário um repertório rico e uma diversidade de informações para que ocorram as sinapses. Após averiguação e diagnóstico do contexto, ocorre a análise das tendências que envolve a prática de entender as informações e detectar um padrão, ou tendência, no conjunto das referências. As tendências também possibilitam traçar diagnósticos e de certa forma, não deixa de ser um trabalho de detetive, analisando evidências.

Atualmente a divulgação de tendências vem norteando indústrias e planejamentos com desdobramentos na sociedade. É importante salientar que a consultoria em tendência, vai além, para as indústrias ela se tornou um programa de planejamento para lançamento de novos produtos, como também uma política, que promove efeitos sobre os principais operadores e formadores de opinião da sociedade.

A partir dessas reflexões, encontramos a tendência como uma previsão – uma prática pouco considerada como meio de vislumbrar o futuro e sua mudanças a partir da leitura do presente, mas que vem se consolidando como ferramenta de planejamento e reposicionamento de mercado para profissionais e empresas.

As tendências podem “criar” um futuro, mas irão partir daquilo que se conhece para perceber deslocamentos inusitados e a produção decorrente desse fato. Elas podem ser uma fonte suplementar de informação para gerar novos critérios de avaliação que auxiliarão na tomada de decisão no design, ou qualquer outro segmento.

Para atuar em tendências, é necessário desenvolver uma metodologia que considere etapas de compreensão como: Identificação – Tradução – Inspiração – Imersão – Planejamento – Processo criativo. A partir desse estudo é possível desenvolver produtos que antecipem as necessidades do indivíduo. Um bom repertório somado à experiência corporal, a mente aberta e as conexões com o entorno, são algumas das premissas importantes para as conexões se tornarem “tendências”.

Referências

BROWN, T. Design Thinking. Boston, Harvard Business Review, 2008.

CALDAS, Dário. Observatório de sinais: teoria e prática da pesquisa de tendências. Rio de Janeiro: Senac Rio, 2004.

CHARMAZ, Kathy. A Construção da Teoria Fundamentada: guia prático para análise qualitativa. Porto Alegre: Artmed, 2009.

LINDKVIST, Magnus. O guia do caçador de tendências: como identificar as forças invisíveis que moldam os negócios, a sociedade e a vida. São Paulo: Editora Gente, 2010.

MORACE, Francesco (org). Consumo autoral: as gerações como empresas criativas; tradução: Kathia Castilho. São Paulo: Estação das Letras e Cores Editora, 2009.

PETERMANN, Elisabeth. Archeology of the Future. Reconsidering the place and nature of trend forecasting in design discourse. Edited by DRS 2014. Umea University of Design, 2014. Disponível em: <http://www.drs2014.org/media/654126/0164-file1.pdf>. Acesso em: 09 de junho de 2015.

RAYMOND, Martin. Tendencias: que son, cómo identificarlas, en qué fijarnos, cómo leerlas. Barcelona: Promopress, 2010.

RIEZU, Marta Dominguez. Coolhunting: marcando tendencias en la moda. Barcelona: Parramón Arquitectura y Diseño, 2009.